Hilda Coelho de Morais

Hilda Morais | Psicóloga em BH | Terapia Online e Presencial

Um ano após a confirmação de que a pandemia era uma realidade em todo o planeta, centenas de cidades ainda enfrentam restrições, desemprego, lockdown, economia quebrada, fome e muito medo. O início da vacinação trouxe a esperança de que o mundo possa voltar a respirar mais aliviado. No entanto, a própria comunidade médica alerta que a imunização não significa a possibilidade de retorno das aglomerações, o fim do distanciamento social, do uso da máscara ou da higienização constante das mãos. Ainda seremos obrigados a conviver com todos os protocolos de segurança por um bom tempo.

Trancar as pessoas em casa, principal modelo de prevenção adotado pelos governantes, vem mostrando ser uma medida com resultados muito negativos. O impacto na saúde emocional do ser humano durante esse distanciamento é a preocupação primordial dos profissionais da área de saúde mental. Até quando uma pessoa consegue permanecer isolada, longe dos familiares e amigos, sem direito à diversão e com tanto controle? Será que existe um limite pra aguentar tudo isso?

Quem responde é a psicóloga Hilda Morais, que possui vasta experiência em Terapia Cognitiva Comportamental.

Várias cidades no Brasil e mundo afora decretaram novamente o lockdown, com a justificativa da chegada de uma segunda onda do coronavírus. Até quando um ser humano consegue viver dessa forma, preso em casa, cheio de restrições? Existe um limite?

O ser humano passou por várias transformações durante a sua evolução, já enfrentou muitas situações de perigo e ameaças e teve que aprender instintivamente a se preservar e garantir a integridade da sua vida. Podemos entender, com isso, que os sentimentos de medo e de ansiedade, que o acompanham desde os primórdios, vêm aumentando cada vez mais no contexto dessa evolução humana.

Nesse momento de pandemia, a gente observa que essa ansiedade passou do limite, e o impacto disso é algo que podemos perceber no descontrole, no desequilíbrio de várias pessoas que não conseguiram se adaptar. Até quando uma pessoa consegue viver dessa forma é algo difícil de responder. Cada um sofre interferência não só dos fatores externos, como do ambiente, do próprio contexto social e familiar. Os agentes internos também impactam no seu estado emocional.

Quais são as consequências para a saúde mental das pessoas que estão sendo obrigadas a viver assim?

O impacto, como eu disse, vai depender muito desses fatores internos e externos. Alguns indivíduos se adaptaram, mas outros tiveram, e ainda têm, muitas dificuldades. Percebo que as pessoas estão cada vez mais adoecidas, e a questão da saúde mental é algo que está bastante acentuada.

A educação emocional e a saúde mental não foram trabalhadas adequadamente para o ser humano enfrentar esse isolamento. A sociedade não percebeu que as dimensões físicas e psíquicas são importantes. As consequências disso tudo são desastrosas: o medo indo cada vez mais para um estado de pânico, uma depressão. E esse quadro, se não tratado, pode afetar a saúde física e também o contexto familiar, causando inúmeros transtornos.

Uma grande preocupação durante essa pandemia é com as pessoas idosas. Para este público específico, a orientação é não sair de casa. Mas, permanecendo confinadas, tendo como distração a TV, o computador ou o celular, longe dos familiares, dos amigos e das atividades cotidianas fora de casa, estas pessoas estão realmente seguras em relação à saúde?

As pessoas idosas são mais frágeis, tanto fisicamente quanto na parte cognitiva. Existem problemas relacionados não só com as articulações, mas também com o estado emocional, devido a certas restrições. O isolamento total dos idosos pode provocar um alto nível de depressão, acentuando outras doenças. Os quadros de demência podem ser agravados devido ao pouco contato social.

Essa perda da qualidade de vida, dos afetos, traz consequências na saúde mental e física dos idosos. Eles vão adoecer mais, apresentar redução da imunidade, ficar mais suscetíveis a doenças e podem até ser infectados com mais facilidade. Esse confinamento despreparado, não planejado, que todos estão fazendo, terá influências muito sérias na saúde.

O fato de estar isolado provoca certos sentimentos. Como a pessoa não tem estímulos externos, ela se volta para uma reflexão interior. Alguns indivíduos não conseguem se adaptar a isto. Quando ficam isolados, com televisões e celulares, não há uma integração, e isso resulta em várias dificuldades de comunicação.

A atividade social em família, em grupos, é muito importante para a saúde mental. O uso exagerado das tecnologias, desfavorecendo a comunicabilidade, vai gerar um efeito ao longo dos anos. A tecnologia não traz uma troca afetiva. Ela traz uma sensação, um sentimento rápido, mas não uma experiência verdadeira, como são as relações próximas.

Além do medo que tomou conta do mundo, as fake news e muitas incertezas relacionadas ao vírus são compartilhadas sem limite. Essa quantidade exagerada de informações desencontradas faz com que muitas pessoas nem saiam mais de casa para seguir com seus tratamentos de saúde ou fazer consultas de rotina. Qual é o prejuízo dessa agenda do medo para as pessoas em geral?

O problema é que não estamos enfrentando somente a pandemia. Além do vírus, vivemos também uma guerra psicológica de informações. Esses fatores, somados, fazem com que o indivíduo se torne fragilizado. Diante do medo, da ansiedade, existem duas reações: fugir ou enfrentar.

Quando você foge da situação, surge um alívio momentâneo. É confortável ficar em casa se distraindo com televisão, com a tecnologia. Mas, fazendo isso, a pessoa escapa das responsabilidades, da adaptação ao momento. Ela vai percebendo que o medo e a ansiedade aumentam cada vez mais, e aí surgem as frustrações.

As fake news são mecanismos nos quais as pessoas estão presas, é uma forma de lidar com a fuga. Ou seja, quando ela começa a repassar falsas mensagens, ela está atrelada a esta resposta de fuga. Devemos ficar atentos à importância que é dada às mensagens que chegam. Quando não existe mais critério em relação a essas informações, provavelmente a pessoa já atingiu o nível mais complicado, que classificamos como fuga do enfrentamento da realidade.

A pessoa se isolar completamente, sem um planejamento, sem algo que faça com que ela se organize em relação às suas questões internas e externas, seja no trabalho ou em casa, vai trazer dificuldades para atravessar esse momento. O medo pode ser acentuado cada vez mais e, enfim, prejudicar não só a vida pessoal, mas profissional também.

E quais seriam os efeitos negativos desse isolamento para as crianças, que nem podem ir à escola?

Os efeitos negativos dependem muito do contexto familiar, da forma como está sendo conduzido esse isolamento. Qual é a rotina organizada pelos pais? Quais estímulos estão sendo proporcionados a essas crianças? Elas estão seguindo orientações da escola? Como está sendo isso?

De alguma forma, os pais assumiram uma responsabilidade com a educação em casa. Em relação à falta de contato social com outras crianças, o resultado disso pode ser sério. Sabemos que o desenvolvimento cognitivo acontece a partir das relações entre as crianças e envolve o afeto, as perdas, os ganhos.

Quando não se tem a oportunidade dessa experiência, pode ficar um vazio registrado na memória como experiências estratificadas sem sentido. E isso faz com que não sejam desenvolvidos, cognitivamente, princípios que são fundamentais na evolução humana. Desprovidos desses valores, o ser humano pode ter dificuldades na fase adulta.

Ao longo dessa pandemia você tem percebido uma elevação nos atendimentos relacionados à saúde mental?

Sim, muito. Nunca fiz tantos atendimentos, nunca tive tanta demanda como estou tendo agora na pandemia. E o que mais chama a atenção é o grau de comprometimento da saúde mental.

Casos de ansiedade muito alta, depressão, irritabilidade, falta de concentração, agressividade, pouca tolerância ao erro, dificuldade de comunicação têm sido comuns. São quadros de ansiedade generalizada, ou seja, o indivíduo apresenta ansiedade não só em alguns momentos, mas vive ansioso o tempo inteiro — seja fazendo qualquer atividade e até mesmo dormindo.

Estou percebendo transtornos mentais e o agravamento de alguns casos patológicos. E isso vem aumentando assustadoramente, mais do que eu poderia imaginar.

Quais seriam os principais problemas pra quem não está cuidando da saúde emocional neste momento atípico que estamos atravessando?

A pessoa que não está cuidando da sua saúde emocional nessa pandemia vai apresentar baixa resistência imunológica, em função do desequilíbrio das emoções e, com isso, pode adoecer, podendo provocar até a própria doença da qual ela está fugindo.

Com um nível alto de estresse prolongado por causa do isolamento, podemos ver um aumento da contaminação em função da queda da imunidade. Isso pode ser percebido em pouco tempo.

O que podemos prever em relação ao futuro é um estresse pós-trauma. É uma forma de manifestação das consequências de momentos traumáticos, que pode surgir depois de alguns meses. Existem manifestações de muitas formas. O estresse pós-trauma é um sofrimento em que a pessoa percebe o coração acelerado, ansiedade muito alta, impaciência, o sono é ruim, a pessoa não consegue se concentrar nas tarefas. E o quadro pode ir piorando.

Se não for tratado, pode gerar estados de pânico e outras complicações. Vários desequilíbrios, em função desse momento de isolamento mal preparado, vão surgir no período de pós-pandemia.

Muitas pessoas defendem radicalmente o confinamento, o Fica em Casa, sem pensar nas consequências dessa imposição. Esses indivíduos, com pensamentos tão radicais, podem apresentar algum comprometimento mental e nem saber disso?

Com certeza. O ser humano foi feito para se socializar, trocar experiências e evoluir com o outro. Quando percebemos essa radicalização, certas formas de pensamento como separar ou ficar longe das pessoas, podemos entender que são comportamentos que falam muito de uma depressão.

O sinal mais visível de que essa pessoa pode estar deprimida é ela defender esse isolamento de forma cada vez mais intensa. O Fica em Casa é uma situação até confortável, e esse indivíduo vai aproveitar o momento para se esconder nele. Quem já apresentava um quadro depressivo antes da pandemia vai lidar mais facilmente com o distanciamento social.

Como é o comportamento desse indivíduo radical que pode estar deprimido sem saber?

Ele passa mais tempo dormindo, se distrai constantemente com televisão, o que representa uma certa fuga. Os pensamentos são mais voltados para coisas negativas, ele fica muito ligado em notícias ruins, sobre mortes. É uma pessoa que está sempre irritada, ansiosa, com medo, não consegue ter um sono saudável, e da irritabilidade ela passa para a falta de concentração.

Com o tempo, começa a perder o controle da organização das coisas. A vida pessoal e profissional são afetadas, surgem desentendimentos e há muitos rompimentos e separações.

Uma coisa é a pessoa aproveitar o período de distanciamento pra trabalhar as questões internas. Porém, isso não significa que ela tem que se isolar. Há formas de passar este período longe dos outros de maneira saudável, sem se esconder no Fica em Casa radical. Quando alguém achar que ficar isolado é melhor do que estar com as pessoas, é um comportamento que deve ser avaliado por um profissional.

Os atos de intolerância ficaram bastante evidentes nessa pandemia e vieram à tona de várias formas. Muita gente foi para as redes sociais aos berros desejar a morte do outro, agredir verbalmente um desafeto, discutir e brigar sobre vários assuntos, palavrões pronunciados online e pelas janelas das casas, amizades desfeitas por alguém que não aceita a opinião ou escolha do outro e muito mais. Podemos entender essas atitudes como um desequilíbrio resultante de tanto tempo preso em casa?

É muito em função dessa confrontação da realidade. O indivíduo está mostrando verdadeiramente quem ele é. Hoje não tem como se esconder. Acredito que seja uma projeção dessa ideia distorcida na mente de uma parte da sociedade, que prefere viver uma ilusão do que ver aquilo que é real.

Vivemos muitas distorções relacionadas com princípios e valores, e o resultado disso tudo é esse desequilíbrio. Quando as pessoas perdem as referências, ou aquilo que pra elas era confortável, elas se mostram e a agressividade vem à tona.

Estamos perto de completar um ano de pandemia no Brasil e ainda sem previsão de quando essa tempestade vai passar, mesmo com a chegada da vacina. Alguma boa dica pra seguir em frente sem comprometer a saúde mental?

A dica que eu tenho é: saúde mental se conquista com um bom trabalho terapêutico. Da mesma forma que vamos ao médico cuidar da saúde física, é necessário estar atento à saúde espiritual e ao desenvolvimento cognitivo. Trabalhar a educação emocional é o caminho mais importante nesse momento.

Eu recomendo que todas as pessoas façam um trabalho de autoconhecimento, se dediquem aos seus medos e inseguranças. Todos nós vamos perceber, a qualquer momento, que essas mudanças comportamentais que surgiram na pandemia são pra sempre. Aprendemos a lidar com algo que provocou uma série de mudanças, e acredito que elas são definitivas.

Por isso, precisamos aprender a desapegar do que é velho, daquilo que não é mais necessário, e caminhar para esse momento novo, onde todos se descobrem como seres de emoções, de sentimentos. Dessa forma, começamos a vencer nossos medos e a valorizar carinhosamente a nossa saúde mental e emocional.

E como fazer isso? Crie uma rotina de forma que você aprenda a ter prazer naquilo que está fazendo. Transforme o seu dia, o seu espaço, e que o tempo que você se dedicar a esta rotina seja algo revigorante, saudável, positivo, motivador — e não pesado.

Valorize a família que você tem, melhore a comunicação com as pessoas, se aproxime daqueles de quem você se afastou. Não precisa necessariamente ser uma aproximação física — há várias formas de aproximação. O distanciamento impede o contato social. E a repercussão disso é uma vida onde o sujeito não vê sentido natural para a própria existência. E isso é muito sério.

Qual será a importância dos profissionais da área de saúde mental no momento pós-pandemia?

Da mesma forma como todos os profissionais da saúde foram convocados para trabalhar no início da pandemia, os Conselhos de Psicologia convidaram os psicólogos para atuarem em dois momentos: durante e após a pandemia. Todos nos colocamos à disposição da sociedade pra isso.

Neste momento, essa atenção é de extrema necessidade, principalmente em termos de saúde mental. Nós veremos o impacto dessa pandemia a médio e longo prazo, e a psicologia tem o papel fundamental de acolher todos os cidadãos, garantindo esse equilíbrio mental.

Muitos indivíduos ficaram fragilizados diante do isolamento e do medo da contaminação. É agora que vamos ver como essas pessoas vão reagir. Além do distanciamento social, fatores como o fechamento do comércio, a perda de empregos, a perspectiva de não ter trabalho, a insegurança em relação à questão financeira, criam um impacto muito grande no estado emocional das pessoas.

São as consequências desse isolamento, do lockdown. Teremos que avaliar como vamos lidar com essa mobilização para o resgate dos empregos e do estado emocional das pessoas, para que elas se tornem mais seguras pra reconstruir suas vidas.

Data: 28/01/2021
BLOG Raquel Mendes
Entrevistada: Hilda Morais

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